Césio-137: relembre o acidente radiológico de Goiânia que inspirou minissérie da Netflix
Caso foi o maior acidente radioativo do mundo fora de usinas nucleares.
O sucesso da minissérie ‘Emergência Radioativa’, lançada pela Netflix no mês passado, fez com que os detalhes e consequências do acidente radiológico de Goiânia voltassem ao centro das atenções.
O caso aconteceu em setembro de 1987, quando dois catadores encontraram um aparelho de radioterapia dentro de uma clínica abandonada. Com o objetivo de separar as partes para venda, eles abriram o dispositivo dando início à contaminação radioativa que atingiu centenas de pessoas e deixou quatro mortos.
Os catadores venderam o que acreditavam ser sucata para Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho da cidade, que percebeu uma luz azul intensa vindo de dentro da cápsula de Césio-137.
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Encantado, ele distribuiu fragmentos do pó radioativo para amigos e familiares. Poucas horas depois, as pessoas que manusearam o material começaram a apresentar sintomas como náuseas, tortura, vômitos e diarreia.
A esposa de Devair, Maria Gabriela, desconfiou que esse mal-estar estava relacionado ao pó misterioso trazido pelo marido. Em busca de ajuda, no dia 28 de setembro, 15 dias após a abertura da cápsula, ela levou o equipamento até a Vigilância Sanitária de Goiânia, onde o material ficou até o dia seguinte, quando os altos níveis de radiação foram identificados.
O acidente radiológico de Goiânia é considerado o maior da história do Brasil e o mais grave do mundo ocorrido fora de usinas nucleares. O caso foi classificado como nível 5 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares, que vai de zero a sete.
Monitoramento

Após a descoberta do material radioativo, o pânico se instalou na cidade. Milhares de pessoas foram até o Estádio Olímpico para passar por processos de descontaminação.
Segundo o Governo de Goiás, mais de 112,8 mil pessoas foram avaliadas e 249 apresentaram sinais de contaminação externa, por contato direto com a pele, ou interna, após inalação, ingestão ou absorção por feridas. Em 120 casos a radiação estava apenas nas roupas ou calçados.
Cerca de 50 pessoas precisaram ser hospitalizadas — 30 em regime de semi-isolamento e 20 no Hospital Geral de Goiânia. Os casos mais graves foram transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. Alguns desenvolveram Síndrome Aguda da Radiação (SAR), enquanto outros apresentaram falência da medula óssea e um paciente precisou amputar o antebraço.
O processo de descontaminação também se estendeu aos locais em que as vítimas manipularam o material. Na Operação Césio-137, 41 casas precisaram ser evacuadas e sete foram demolidas.
Vítimas fatais
Quatro pessoas morreram entre quatro e cinco semanas após a exposição ao Césio-137:
- Leide das Neves Ferreira (6 anos): teve contato direto com o material e ingeriu partículas. Morreu em 23 de outubro de 1987 e foi enterrada em um caixão de chumbo para conter a radiação
- Maria Gabriela Ferreira (37 anos): apresentou sintomas poucos dias após o contato e morreu no mesmo dia de Leide. Também foi sepultada em um caixão especial
- Israel Batista dos Santos (22 anos): trabalhava no ferro-velho e participou da manipulação do material. Morreu em 27 de outubro de 1987
- Admilson Alves de Souza (18 anos): também trabalhava no ferro-velho e teve contato direto com a fonte radioativa. Morreu no dia 28 de outubro de 1987
Repercussão da série

Após a estreia em 18 de março, ‘Emergência Radioativa’ se tornou uma das produções mais assistidas da Netflix e chegou a liderar o ranking de minisséries em língua-não inglesa mais vistas da plataforma.
Toda a repercussão e popularidade da série impulsionou o governo de Goiás a reajustar o valor das pensões concedidas aos afetados pelo acidente radiológico.
Agora, a pensão para os radiolesionados pelo contato direto com o Césio-137 e para quem recebeu irradiação superior a 100 RAD subiu de R$ 1.908 para R$ 3.243. Os demais afetados terão o benefício alterado de R$ 954 para R$ 1.621.
Os valores não eram reajustados desde 2018. Em 2023, o governo do estado vetou um projeto de lei que alterava as pensões e usou como justificativa a falta de estudo sobre o impacto financeiro nas contas do estado.
Atualmente, 603 pessoas têm direito ao benefício.