Paraná é o segundo estado que mais recebe migrantes venezuelanos e demanda tende a aumentar
Instabilidade após ataque dos EUA no país vizinho vai intensificar fluxo de refugiados, afirmam especialistas.
Devido à instabilidade gerada pelo ataque dos Estados Unidos à Venezuela em 3 de janeiro, especialistas apontam que o número de migrantes deve crescer nos próximos meses — com impacto mais acentuado no Paraná.
Segundo o sociólogo Márcio de Oliveira, coordenador do Projeto Atlas da Migração Internacional da Universidade Federal do Paraná (UFPR), os principais atrativos do estado são os elevados índices de empregabilidade e a constante demanda por mão de obra.
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Atualmente, o Paraná é o segundo estado que mais recebe venezuelanos por ano, posição que pode variar mês a mês. Dos mais de 575 mil venezuelanos residentes no Brasil, cerca de 87 mil vivem no Paraná. Além disso, Curitiba tem papel central no Programa Acolhida do Governo Federal, que recebeu mais de 8,9 mil migrantes desde 2018.
Em Maringá, os números são menores, mas expressivos. A Secretaria da Juventude, Cidadania e Migrantes (Sejuc) informa que, somente em 2025, mais de 1,3 mil pessoas de 34 nacionalidades foram acolhidas no município — um aumento de 44,4% em relação ao ano anterior. As principais origens são Venezuela (839), Haiti (164), Cuba (138), Colômbia (78) e Paraguai (68).
“Devido às redes que já são organizadas no Brasil todo — e no Paraná, em especial — pode ser que, sem saber exatamente para onde vai o país, algumas pessoas pensem em sair, mas isso leva um pouco de tempo; não é do dia para a noite”, explicou Oliveira.
A instabilidade da Venezuela
A migração em massa da Venezuela vem ocorrendo na última década em razão da crise política, econômica e social. Desde 2013, sob o governo de Nicolás Maduro, a população enfrenta escassez de serviços públicos, hiperinflação e deterioração das condições de vida.
Estima-se que entre 7 e 8 milhões de venezuelanos deixaram o país entre 2014 e 2024, embora os números variem conforme as definições de refugiado, migrante ou requerente de asilo.
Apreensão com o futuro do país
Os venezuelanos residentes no Brasil acompanharam a ocupação da Venezuela pelos EUA com apreensão e, em alguns casos, esperança. Em Curitiba, dezenas de venezuelanos se reuniram em frente ao prédio histórico da UFPR, com bandeiras e cânticos.
“O mais importante é que Maduro caiu”, afirmou a venezuelana Fabíola Ricardo durante a manifestação.
Entre os migrantes, predomina a preocupação com o bem-estar de familiares que permanecem no país. Benjamin Mast, que chegou ao Brasil em 2016, atribui a crise a uma combinação de falhas políticas internas e sanções externas, e prevê aumento da violência em razão da polarização.
“Acho que vamos ver uma Venezuela muito polarizada, muito instável politicamente porque tem um vazio de poder”, afirmou.
Livia Esmeralda Vargas González, residente em Foz do Iguaçu, descreve a situação como “triste, lamentável e deplorável”.
“Ter que lidar com essa ferida, essa dor e acompanhar de longe a situação crítica em termos econômicos, sociais, políticos e afetivos tem sido um percurso que oscila entre a gratidão com o Brasil que me acolhe e a dor da família longe”, afirmou.
Em Maringá, migrantes têm acesso ao Centro de Referência e Acolhimento ao Migrante (Crai), que oferece moradia temporária de até seis meses. A cidade também conta com o Conselho Municipal de Direitos dos Refugiados, Migrantes e Apátridas (Corma) e integra a Rede Nacional de Cidades Acolhedoras (RNCA), iniciativa do Ministério da Justiça e Segurança Pública que reúne 21 municípios brasileiros.