De onde vem o sotaque maringaense?
Som do ‘R caipira’ característico da região Norte do Paraná tem origem em línguas faladas pelos povos originários. Entenda.
A forma como falamos português e os sotaques característicos de cada região do país não nascem sozinhos. O português brasileiro está sendo formado ao longo dos séculos graças às misturas causadas pelos idiomas dos colonizadores e dos escravizados, além das línguas dos indígenas que já habitavam o território antes da chegada dos europeus, como explica Juliano Desiderato Antonio, professor do Departamento de Teorias Linguísticas e Literárias da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
“As línguas mudam constantemente. O português que falamos hoje no Brasil foi fortemente influenciado pelas línguas indígenas dos povos originários, pelas línguas africanas dos escravos e pelas línguas dos imigrantes europeus”.
Em um país continental como o Brasil, que possui mais de 210 milhões de habitantes, características regionais movidas por essas influências alteram o português de tal maneira que falantes da mesma língua podem ter dificuldade em se entender. Às vezes, o dialeto (diferenças gramaticais e de vocabulário) muda dentro do mesmo estado.
“Aqui em Maringá falamos ‘estojo’, ‘tubaína’ e ‘salsicha’. Já em Curitiba os equivalentes dessas palavras são, respectivamente, ‘penal’, ‘gasosa’ e ‘vina’. Essas são diferenças de vocabulário. Em algumas regiões do Nordeste a partícula negativa é utilizada após o verbo. Então, enquanto nós dizemos ‘não vou’, lá as pessoas dizem ‘vou não’. Essa é uma diferença gramatical”.
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Como surgiu o sotaque de Maringá?
O som do R marcado em palavras como ‘poRtão’, ‘maRca’ e ‘caRta’ é chamado de ‘R caipira’ ou ‘R retroflexo’. Juliano explica que essa característica do sotaque do Norte paranaense é herança dos povos originários e da passagem dos bandeirantes pela região.
“Na época do Brasil colônia, havia línguas gerais no país, utilizadas no cotidiano, em ambientes familiar ou de trabalho, e também ensinadas nas escolas pelos jesuítas para facilitar o processo de catequização. Uma dessas línguas gerais era a língua geral paulista, também chamada ‘tupi antigo’”.
A base da língua geral paulista era o idioma dos tupis, usado pelos bandeirantes durante os séculos XVII e XVIII para se comunicar com os indígenas habitantes do interior de São Paulo e que ficou conhecida como a língua do Brasil caipira.
“Falamos esse ‘R’ aqui em nossa região por conta dos migrantes que vieram para o Norte do Paraná, em sua maioria paulistas. Esse é o único ‘R’ genuinamente brasileiro porque já existia em línguas do Tronco Macro-Jê faladas por povos originários”.
Além disso, o professor da UEM esclarece que a chegada de imigrantes também alterou a maneira como habitantes de cada região falam, com expressões e vocábulos que se infiltram no cotidiano da língua. “O português falado no Brasil não é homogêneo. Na verdade, temos inúmeras variedades do português, e nenhuma delas é melhor do que a outra. São apenas diferentes entre si”, completou.