COP30 aborda sustentabilidade como ação imediata e não para projetos do futuro
Evento realizado em Belém coloca a Amazônia e a realidade brasileira em destaque, mas grande parte da sociedade civil ainda não entende sua importância.
Após duas semanas de encontros entre cientistas, líderes mundiais e representantes da sociedade civil, a 30ª edição da Conferência das Partes (COP) chega ao fim com a mensagem de que a sustentabilidade é uma ação imediata, não um projeto para o futuro.
Realizada em Belém, no Pará, a COP30 promoveu debates e negociações importantes contra as mudanças climáticas, com a Amazônia e a realidade brasileira em foco. No entanto, mesmo com tamanha relevância, a maioria dos brasileiros não sabe o que o evento representa.
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De acordo com pesquisa do instituto Real Time Big Data, 62% dos entrevistados afirmam não saber o que é o evento, tampouco acham que o encontro fará diferença no enfrentamento à crise climática global. Do total de entrevistados, apenas 30% enxergam a COP30 com potencial de mudança efetiva na sustentabilidade.
A pesquisa ainda aponta que, além da descrença em projetos efetivos resultantes da COP30, os brasileiros demonstram pouco interesse em sustentabilidade.
As principais preocupações da população são segurança (27%), saúde (23%), educação (20%), economia (16%) e desenvolvimento social (10%). O meio ambiente fica em último lugar entre os setores que devem ser considerados prioridade, com apenas 4%. Foram ouvidas 1,5 mil pessoas entre os dias 11 e 12 de novembro de 2025, com margem de erro de três pontos percentuais.
Os números comprovam que eventos como a COP30 são fundamentais para levantar debates e discutir avanços em prol de um sistema econômico mundial mais sustentável — especialmente porque o assunto é encarado com desinteresse pela sociedade civil.
Origem e importância da Conferência das Partes
A Conferência das Partes, popularmente chamada de COP, é o ponto alto de negociações da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), criada em 1992 durante a Eco-92, no Rio de Janeiro, pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Desde 1995, líderes mundiais, cientistas, empresas e sociedade civil se reúnem anualmente para discutir estratégias de combate às mudanças climáticas. Foi na COP que nasceram acordos históricos, como o Protocolo de Kyoto (1997) e o Acordo de Paris (2015), que estabeleceu metas globais para limitar o aquecimento do planeta.
Pela primeira vez na Amazônia, considerada o “pulmão do mundo”, a COP30 carrega um peso simbólico e de grande estratégia, colocando o Brasil no centro das discussões climáticas globais, reforçando seu papel como guardião da maior floresta tropical do planeta e como protagonista na transição energética e na preservação da biodiversidade.
Além de medidas gerais e negociações políticas, a COP30 também levantou debates sobre financiamento verde, participação indígena e cidades sustentáveis, temas que impactam diretamente o presente e futuro das nações e a vida cotidiana dos brasileiros.
Muito se fala, mas como é viver a COP30?
Gabriella Muhlmann participou da cobertura da COP30 pelas redes sociais do podcast SustenTalks, projeto com foco em debates acerca do desenvolvimento sustentável. A impressão da social media foi de estar vivendo uma experiência única.
“Estar em um evento mundial já torna tudo especial. Ver culturas diferentes, pessoas do mundo todo pensando no mesmo propósito foi o mais marcante para mim”, destacou.

Em nome do SustenTalks, Gabriella entrevistou cientistas, políticos e empresários. Entre os destaques da cobertura, ela cita a entrevista com o Governador do Pará, Helder Barbalho, que comentou a polêmica de a COP30 ser chamada de “FLOP30” — um trocadilho em inglês que significa fracasso.
“São mais de 63 mil pessoas inscritas [no evento]. É sucesso absoluto. E para aqueles que achavam que o Brasil não era capaz, e principalmente que uma cidade da Amazônia não poderia fazer esse evento extraordinário, a resposta é a realidade”, afirmou o governador em vídeo publicado no Instagram.
Entre as diversas entrevistas e assuntos debatidos, Gabriella destaca a resiliência climática como um dos assuntos mais surpreendentes durante o evento. Ela diz que entender a importância das prevenções de desastres naturais a fez enxergar a sustentabilidade como um projeto urgente de agora e não do futuro.
No painel que participou, foram apresentados dados de que desastres naturais causam prejuízos econômicos irreversíveis. Um dos exemplos citados foi do furacão Katrina, que causou perda estimada em cerca de 2 bilhões na economia local.
A conclusão é de que a cada 1 real gasto em prevenção de desastres naturais e infraestrutura de resiliência, outros 7 reais são ganhos, visto que seriam perdidos para reerguer a economia e comércios após o evento.
“Acho que comecei a ter uma perspectiva diferente até mesmo sobre as empresas. Percebi que muitos se esforçam de verdade e se apropriaram da pauta para mudar a dinâmica. O que mais me marcou foi ver o quanto essas negociações são profundas e como a sustentabilidade hoje é o presente. Quem não investe em sustentabilidade, certamente, em um futuro breve, estará ultrapassado”, afirmou.
A economia e o clima
A COP30, em resposta aos comentários de FLOP30, encerra a edição brasileira sendo o evento com maior participação da sociedade civil até hoje. A cidade de Belém se tornou uma vitrine mundial da Amazônia, destacando sua riqueza cultural e os principais desafios ambientais a serem enfrentados.
Além de reforçar que a sustentabilidade é o agora e que os empresários que não investem em transição energética ou adoção de políticas verdes ficarão para trás, o evento também destacou que economia e o clima caminham lado a lado, fazendo dos desastres naturais algo além de tragédias ambientais, mas também grandes tragédias econômicas para empresas de todos os portes.
O evento foi dividido em dois pavilhões: a Zona Azul, restrita às negociações oficiais de representantes e empresas de todo o mundo, e a Zona Verde, aberta ao público com palestras em português e participação de comunidades indígenas.
“A COP é apenas um recorte da realidade, como qualquer outro evento de negociações. Não é um portal de um mundo perfeito e sustentável, há plástico também. Apesar de muito material ser biodegradável, ainda há produção de lixo e nesse sentido cabem críticas, mas de forma alguma esse argumento invalida as discussões maiores que guiam o futuro do planeta e ocorrem ali”, realçou Gabriella.
Discussões de impacto para os municípios brasileiros
Entre os paineis que conseguiu acompanhar, Gabriella destaca um projeto apresentado por Singapura para tornar as cidades mais verdes, integrando natureza e urbanismo, e que a lembrou de Maringá, reconhecida como Cidade Árvore do Mundo desde 2022.
“Acredito que precisamos valorizar mais essa conexão do urbano com o meio ambiente. Isso é algo que Maringá já tem e que o mundo sonha. As árvores podem ser um grande problema durante as chuvas na cidade, mas acredite, a arborização é o futuro das cidades inteligentes”, afirma.
Entre as dezenas de pautas discutidas, inovações apresentadas e negociações realizadas na COP30, as principais conquistas foram a Meta Global de Adaptação (GGA), que busca estabelecer parâmetros universais para preparar sociedades contra os impactos das mudanças climáticas; o lançamento do Fundo de Florestas Tropicais para Sempre, voltado à proteção da Amazônia e de biomas tropicais; o financiamento climático, especialmente o apoio de países desenvolvidos para nações em desenvolvimento; e a meta de redução das emissões de gases de efeito estufa.
O desafio agora é fazer com que os brasileiros compreendam a importância do evento, se apropriem e se interessem pelas discussões que definem o futuro do planeta. “Para entender a COP é preciso conhecer sua história. Não é apenas sobre sustentabilidade, mas sobre política e economia”, finaliza Gabriella.
Para acompanhar todos os debates desta e das edições passadas e futuras da Conferência das Partes, acesse o site oficial da UNFCCC.