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Egresso da UEM vence prêmio nacional da Cátedra Sérgio Vieira de Mello

Projeto propõe um sistema de arquitetura emergencial para pessoas deslocadas por eventos climáticos extremos.

Egresso da UEM vence prêmio nacional da Cátedra Sérgio Vieira de Mello
Um protótipo em escala real foi construído em duas horas no Campus Sede da UEM e a estrutura permaneceu exposta durante três meses. - Foto: Divulgação/UEM/João Guilherme Oliveira
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João Guilherme Tegoni Oliveira, egresso do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Maringá (UEM), venceu a modalidade Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do Prêmio Sérgio Vieira de Mello. 

Orientado pelo professor Renato Leão Rego, o trabalho propõe um sistema de arquitetura emergencial para pessoas deslocadas por eventos climáticos extremos.

Intitulado “Fluxo Humano: Tramas em trânsito de uma arquitetura emergencial”, o TCC aborda a migração interna provocada por eventos como enchentes, secas e desertificação. 

Segundo Oliveira, por permanecerem dentro do próprio país, essas pessoas ficam fora da proteção jurídica destinada aos refugiados.

A escolha do tema ocorreu no fim de 2024, meses depois de as enchentes no Rio Grande do Sul evidenciarem os impactos dos eventos climáticos sobre o deslocamento de populações no Brasil. A partir desse cenário, Oliveira investigou como a arquitetura poderia responder às necessidades de pessoas em trânsito.

“Escolhi esse caminho porque a arquitetura ainda projeta quase sempre pensando no estático, e muito pouco para quem está em movimento”, afirma.

Arquitetura do percurso

A resposta desenvolvida no TCC recebeu o nome de “arquitetura do percurso”, conceito pensado para a travessia, em vez da permanência. O projeto consiste em um sistema modular de abrigo baseado em um módulo de seis barras de eucalipto, que se combina em seis configurações diferentes e cobertas por lona tensionada.

llustrações dos abrigos propostos pelo projeto de arquitetura emergencial. Foto: Ilustrativo/João Guilherme Oliveira

Um protótipo em escala real foi construído no Campus Sede da UEM. A montagem levou cerca de duas horas e a estrutura permaneceu exposta durante três meses. O kit completo, composto por mochila, banco e lona, tem custo estimado em R$2.850.

Mais do que oferecer uma estrutura pronta, a proposta permite que o sistema seja adaptado pela própria comunidade de acordo com os materiais disponíveis.

“Para mim, o mais importante é que o sistema funciona como uma linguagem que a comunidade adapta com o material que tem à mão, e não como uma solução fechada entregue pelo arquiteto”, explica Oliveira.

O projeto foi estruturado a partir de três princípios: mobilidade, adaptabilidade e coesão comunitária. Para desenvolvê-lo, Oliveira analisou referências que vão de tendas utilizadas pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) e abrigos do arquiteto japonês Shigeru Ban a moradias tradicionais de povos nômades, como a iurta mongol e a tenda beduína.

A pesquisa também parte do que Oliveira identifica como uma lacuna jurídica e política em relação aos migrantes climáticos internos para pensar o acolhimento por meio da arquitetura. 

Na proposta, mesmo uma estrutura provisória deve oferecer condições de dignidade e contribuir para a reconstrução de vínculos comunitários.

Reconhecimento nacional

O Prêmio Sérgio Vieira de Mello reconhece o mérito acadêmico e a contribuição social de trabalhos de graduação e pós-graduação sobre deslocamento forçado, refúgio, acolhimento e integração local. Para Oliveira, a premiação evidencia a contribuição que a Arquitetura pode oferecer ao debate. 

“Ter um TCC de arquitetura reconhecido nesse contexto mostra que o projeto de arquitetura também tem algo a dizer sobre deslocamento forçado, e não só a análise jurídica ou social”, destaca.

Oliveira trabalha com Renato Leão Rego desde a iniciação científica, em 2023. O TCC foi defendido em janeiro deste ano e a graduação concluída em fevereiro. Segundo ele, a orientação do professor contribuiu para desenvolver o protótipo em escala real e a pesquisa.

“Outra grande contribuição foi a liberdade que ele me deu. Pelos critérios tradicionais da academia, esse trabalho talvez não estivesse no rol esperado de um TCC de arquitetura. Graças a essa liberdade, ele pôde ser desenvolvido, avaliado e premiado”, afirma.

A conquista ocorre dois anos após a UEM passar a integrar a Cátedra Sérgio Vieira de Mello (CSVM). A Universidade foi aprovada pelo Acnur em 2024 e tornou-se a primeira universidade estadual do Paraná a fazer parte da iniciativa.

Para o coordenador da CSVM na UEM, Marcio Cassandre, a premiação de um egresso reforça o compromisso da Universidade com a produção de conhecimento voltada aos direitos humanos e às questões humanitárias, além de evidenciar o trabalho desenvolvido no ensino e na pesquisa sobre temas de relevância social.

Cátedra Sérgio Vieira de Mello

Na UEM, a Cátedra Sérgio Vieira de Mello está ligada ao Escritório de Cooperação Internacional (ECI) e articula ações de ensino, pesquisa e extensão relacionadas à população refugiada.

Entre as iniciativas está a seleção interna de trabalhos acadêmicos sobre refúgio, migração forçada e acolhimento, posteriormente encaminhados à etapa nacional da premiação.

Os trabalhos vencedores recebem certificação, e os primeiros colocados têm a oportunidade de apresentar suas pesquisas no XVII Seminário Nacional das Cátedras Sérgio Vieira de Mello, ampliando o debate sobre refúgio e acolhimento no país.

Universidade Estadual de Maringá