EDUCAÇÃO

“Todo mundo odeia a escola”: professora viraliza com relatos do desrespeito sofrido em sala de aula

Em entrevista ao Maringa.Com, Geórgia Kimura fala sobre sua experiência exaustiva na profissão e o que ainda a motiva como docente.

“Todo mundo odeia a escola”: professora viraliza com relatos do desrespeito sofrido em sala de aula
Vídeos com fortes relatos da vivência como professora ultrapassaram a marca de 6 milhões de visualizações no Instagram. - Foto: Reprodução/Redes Sociais
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“É depressivo, é decadente. Em todas as escolas em que estou ou estive, a energia é a mesma: lutar contra o desânimo e o desrespeito todos os dias”, desabafa a professora Geórgia Kimura, maringaense que viralizou no Instagram ao expor a violência que tem vivido dentro de sala de aula.

Com os vídeos “Todo mundo odeia a escola”, que somam mais de 6,5 milhões de visualizações, Geórgia relata como tem sido a experiência como professora de crianças e adolescentes: exaustão física e mental, desrespeito a autoridade e xingamentos ou falas violentas e misóginas.

Em um dos casos mais intensos, ela diz, chorando, que pela primeira vez teve que ir embora de uma aula.

“Estou me sentindo uma fracassada, uma loser, mas, isso tá acontecendo pra eu denunciar os absurdos que a gente tá vivendo dentro da escola. Fazer do professor um inimigo declarado já é mais do que um absurdo.” diz no vídeo de maior audiência no Instagram.

Exaustão física e mental

Há 10 anos atuando em contrato temporário nas escolas públicas do Paraná, Geórgia já deu aulas em curso técnico de Vestuário e, atualmente, leciona Arte e Filosofia para as turmas de 6º série ao 3º ano do Ensino Médio.

Ela destaca que todas as faixas etárias são desafiadoras, mas de formas distintas: enquanto as crianças do Ensino Fundamental cansam fisicamente, os adolescentes a desgastam emocionalmente. “É como se tivessem a certeza da impunidade e isso faz com que as reações violentas sejam mais frequentes”, explica.

Planejamentos que viram frustração

Geórgia destaca que abandonou as aulas expositivas pela constante frustração em ser ignorada e desrespeitada. Ela tem adotado metodologias mais ativas, com foco na produção dos alunos e/ou dinâmicas.

Com pouco tempo disponível para elaborar metodologias, ela diz que sua cabeça está constantemente pensando em como converter conteúdos em projetos, jogos, práticas e demais atividades instigantes. Mas o planejamento não consegue prever as adversidades e desobediências.

Recentemente, Geórgia elaborou uma atividade que funcionaria como um semáforo. Dividiu a quadra em três espaços e os alunos deveriam se deslocar fisicamente para informar se conhecia, se já tinha ouvido falar ou se não fazia a menor ideia do que era aquilo citado.

O que era pra ser uma dinâmica simples, se transformou em caos.

“Foi um desastre. Eu gritei muito. Eles não me ouviam, não me obedeciam. Alguns ficaram sentados e se negaram a participar”.

Afastamentos por saúde mental crescem no Paraná

A pesquisa nacional Nova Escola aponta que 21,5% dos professores do Brasil avaliaram sua saúde mental como ruim ou muito ruim. Os principais sintomas são ansiedade (60,1%), cansaço excessivo (48,1%) e insônia (41,1%).

De acordo com dados oficiais da APP-Sindicato, somente em 2024, mais de 8,9 mil professores da rede estadual do Paraná foram afastados para tratamento mental.

No entanto, o índice seria ainda maior se fossem contabilizados os professores temporários, os chamados “PSS, que são proibidos pelo governo de acessar o Serviço de Assistência à Saúde (SAS), concedido apenas aos servidores concursados.

Só é possível reduzir a carga horária se outro docente assumir as aulas, além disso, o profissional fica proibido de pegar mais aulas posteriormente. Para aqueles que os atestados médicos são aceitos, há redução de salário.

“O processo de desistência de carga horária é extremamente burocrático. Dá a impressão de que a Secretaria de Educação está contra a classe educadora e não compreende com seriedade o problema de saúde mental que estamos enfrentando”, destaca Geórgia.

Embora o governo estadual tenha lançado o aplicativo Bem Cuidar, com mais de 40 mil consultas psicológicas e psiquiátricas entre 2022 e 2024, especialistas apontam que a iniciativa tem mais caráter paliativo do que uma solução efetiva para a estrutura precária enfrentada pelos professores diariamente em sala de aula.

“É urgente que a sociedade e as políticas públicas assumam e se aliem na missão de educar crianças e jovens. E a escola precisa atuar diretamente com suporte emocional, inserindo profissionais da psicologia no quadro de funcionários efetivos. O aluno desrespeitoso de hoje é o cidadão desrespeitoso de amanhã”, endossa Geórgia.

“O que ainda me motiva são as conexões humanas”

Apesar do desânimo com a rotina desafiadora repleta de desrespeito e violência, Geórgia destaca que se mantém motivada pelas conexões humanas. “Acredito que seja um sentimento parecido com o de bell hooks quando ela diz que nós não temos que amar, escolhemos amar”.

Mesmo com o sentimento constante de raiva e tristeza, para se manter resiliente, ela busca celebrar as pequenas vitórias do dia a dia e reconhecer ações positivas dos alunos com agradecimentos, elogios e momentos de recreação.

“Às vezes, o aluno quer algo simples, como sair um pouquinho da sala. Sentimos muita raiva pelo desrespeito e é humano querer punir o aluno fazendo ele copiar coisas do quadro por duas aulas inteiras. Mas é justamente isso que diferencia os adultos das crianças. Como professora, preciso tomar muito cuidado para não agir como uma ‘criança com poder’”.

Para Geórgia, ser uma figura de autoridade na sala de aula significa um exercício constante de autocontrole e autoridade que, vez ou outra, é recompensado pelos alunos com um olhar de gratidão.

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Maringa.Com
Por Gabrielle Nascimento