Gasto suficiente para abastecer cidades inteiras por dias: por que a IA consome tanta água?
Com mais de 400 milhões de usuários semanais, tecnologia exige meio litro de água para cada 20 comandos. Entenda.
Fazer perguntas às plataformas de inteligência artificial consome, em média, o equivalente a meia garrafa de água potável por pessoa. Agora, imagine esse consumo multiplicado por 400 milhões de usuários semanais apenas no ChatGPT.
Isso acontece porque todos os dados processados pelas IAs passam por data centers, que utilizam grande quantidade de energia e milhares de litros de água para manter os sistemas resfriados e, parte dessa água, simplesmente evapora.
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Os data centers são espaços com infraestrutura robusta onde ficam os servidores responsáveis por processar, gerenciar e armazenar grandes volumes de dados digitais. É de lá que saem todas as respostas dos chats de IA que exigem muita água e energia
Você sabia do desperdício de água causado pelos data centers?
Resultado:
ChatGPT evapora cerca de 200 milhões de litros de água por semana
Uma pesquisa da Universidade da Califórnia constatou que o consumo hídrico semanal do GPT-3, modelo do ChatGPT, equivale a 200 milhões de litros de água potável a cada 20 e 50 comandos, dependendo do seu nível de complexidade.
Como a OpenIA, a empresa responsável pela plataforma, não divulga oficialmente o volume consumido, os cientistas estimaram os números com base no uso de energia e nos sistemas de resfriamento utilizados.
Para entender a dimensão, conforme dados da Sanepar, Maringá consome de 163 a 166 litros de água por habitante diariamente — cerca de 65 milhões de litros por dia. Ou seja, uma semana de uso do ChatGPT poderia abastecer o município por até três dias.
Veja outros comparativos de consumo:
- Londrina (PR): consome em média 99 milhões de litros de água por dia;
- Curitiba (PR): Consome em média 259 milhões de litros de água por dia.
Data centers no Brasil
O Brasil lidera a América Latina em número de data centers, com mais de 160 unidades em operação, a maioria na região Sudeste do país, ocupando a 12ª posição mundial. Os investimentos têm crescido com o avanço da inteligência artificial, dos sistemas de nuvem e dos serviços de internet.
“O Brasil é um país muito atrativo para a infraestrutura de data centers. Além de contar com abundância de água e energia, temos uma posição estratégica no tráfego internacional de dados, impulsionada pela rede de cabos submarinos que conecta continentes”, destaca o ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho.
Segundo relatório da Moody’s, divulgado em janeiro de 2026, estima-se que serão investidos cerca de US$ 3 trilhões nos próximos cinco anos no setor.
Com o propósito de consolidar o Brasil como polo mundial de data centers, o Ministério das Comunicações trabalha na Política Nacional de Data Centers, vinculada à Nova Indústria Brasil (NIB), com foco em segurança jurídica, eficiência energética, formação de mão de obra e integração com cadeias industriais.
Além disso, foi criado o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), com orçamento de R$ 5,2 bilhões em 2026, prevendo isenção de impostos PIS/Pasep, Cofins e IPI para equipamentos essenciais e incentivo à instalação em regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Em contrapartida, o Redata estabelece que:
- empresas beneficiadas terão que investir 2% do valor dos produtos adquiridos no mercado interno ou importado em pesquisa e desenvolvimento nas cadeias produtivas digitais no Brasil;
- ao menos 10% dos serviços necessários para operação deverão ser reservados para o mercado interno;
- os projetos deverão cumprir exigências de sustentabilidade, com energia renovável ou limpa, além de eficiência hídrica.
Em janeiro de 2026, a empresa Omni iniciou as obras do primeiro data center do TikTok na América Latina, localizado no Ceará. O complexo ocupa uma área de 68 hectares entre Caucaia e São Gonçalo Amarante, próximo ao Porto de Pecém e à Lagoa do Cauipe.

A escolha do local é considerada estratégica pela proximidade com recursos hídricos e cabos submarinos de fibra óptica que conectam continentes.
Ministério Público aponta irregularidades no projeto
O projeto, avaliado em R$ 200 bilhões, foi anunciado em dezembro de 2025. No mesmo mês, a Secretaria de Perícia, Pesquisa e Análise da Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou um laudo apontando irregularidades nos dados de uso da água e na produção de energia previstos para a estrutura.
Segundo o projeto oficial, o data center consumirá 30 mil litros de água por dia, sendo 10% destinados ao sistema de resfriamento em circuito fechado, com reciclagem contínua.
A energia utilizada será a eólica, em parceria com a Casa dos Ventos, com estimativa de consumo entre 200 MW e 300 MW — suficiente para abastecer 2,2 milhões de pessoas.
No entanto, o laudo da PGR afirma que não houve comprovação da suficiência do manancial subterrâneo, que precisaria fornecer ao menos 88 mil litros diários sem comprometer o abastecimento das comunidades locais. Também aponta que o sistema não seria totalmente limpo, devido ao uso de geradores a diesel em um circuito paralelo.
Com base nesse documento, o Ministério Público do Ceará (MPF-CE) contestou o projeto.
As empresas Omnia e TikTok alegaram não haver qualquer irregularidade no consumo de água e energia previsto na licença concedida pelo governo.
Em notas ao Poder 360, o TikTok alegou que o empreendimento tem "baixíssimo impacto hídrico, equivalente a um empreendimento de característica residencial”, já a Omnia afirmou que o gasto de água será semelhante ao de empreendimentos prediais de pequeno porte e que é destinado “majoritariamente para consumo humano, uma vez que o sistema de refrigeração será em circuito fechado”
A Omnia ainda defende que os geradores a diesel são utilizados em situações excepcionais e de emergência.
“As emissões associadas a esses sistemas são pontuais, rigorosamente controladas e ambientalmente irrelevantes, não comprometendo a qualidade do ar. Além disso, os geradores utilizam diesel de baixo teor de enxofre e têm funcionamento monitorado, controle de horas de uso e atendem integralmente às exigências do órgão ambiental”, disse à imprensa.
O MPF-CE segue avaliando o projeto e as avaliações técnicas após a perícia inicial e, dependendo da decisão da Justiça sobre a operação e licenciamento do data center, as obras poderão ser paralisadas.